5 tópicos de Terça #78
Milkshakes, containers, sorte, simulações e quotes
Toda terça-feira, 5 ideias na sua caixa de entrada com a curadoria especial de seus founders favoritos (dica: Lucas e Edu).
🥢 1. Quotes da semana
“The score takes care of itself.”
- Bill Walsh
“Luck is what happens when preparation meets opportunity.”
- Seneca
“The main thing is to keep the main thing the main thing.”
- Stephen R. Covey
🥢 2. Quando só um milkshake faz o trabalho
Clayton Christensen foi um dos professores mais influentes da Harvard Business School. Ele dedicou a carreira a uma pergunta: por que a inovação falha tanto?
Quase 90% dos novos produtos lançados no mercado fracassam. Para Christensen, o problema não era falta de sorte. Era que todos fazem a pergunta errada.
O marketing tradicional te ensina a estudar o cliente. Idade, renda, estado civil. Mas nenhum desses atributos causa a compra. O fato de um cara ter 64 anos e 1,98m não é o que faz ele comprar o New York Times de manhã.
A pergunta certa não é "quem é o cliente?", mas: "para qual trabalho ele está contratando esse produto?"
Essa é a essência do framework do Job to be Done. Todos os dias surgem "trabalhos" nas nossas vidas. Quando isso acontece, a gente contrata um produto para resolvê-los. Se faz bem, recontrata. Se não, demite.
A melhor história para explicar isso é a famosa do milkshake do McDonald's:
O McDonald's queria vender mais milkshakes. Pesquisaram o perfil do cliente ideal, perguntaram como melhorar o produto, aplicaram todo o feedback. As vendas não mudaram em nada.
Christensen fez diferente. Em vez de perguntar, decidiu observar.
Descobriu que 50% dos milkshakes eram vendidos antes das 8:30 da manhã. Sempre a mesma cena: pessoa sozinha, compra só o milkshake, leva pro carro e vai embora.
A nova pergunta: "qual 'trabalho' você contratou esse milkshake para fazer?"
A resposta era nada óbvia, mas consistente. As pessoas tinham um trajeto longo e entediante até o escritório e precisavam de algo para ocupar a mão no volante e segurar a fome até as 10h.
Os concorrentes reais não eram milkshakes de outras redes. Eram bananas, donuts, bagels e até um Snickers.
Cada um já tinha sido contratado para esse trabalho. Cada um falhava de algum jeito: banana acabava rápido, donut esfarelava, bagel era impossível de comer dirigindo, Snickers trazia culpa.
O milkshake? Perfeito. 23 minutos por aquele canudinho fino. Cabia no porta-copos. Não sujava. Segurava a fome. Se bobear tinha até fruta pra parecer mais saudável.
O produto não precisava ser melhorado. Precisava ser entendido.
E à tarde? Os mesmos milkshakes eram comprados por pais querendo um momento tranquilo com os filhos. Mesmo produto, trabalho completamente diferente.
A sacada: o cliente é a unidade errada de análise. A mesma pessoa contrata produtos diferentes ao longo do dia. E produtos diferentes competem pelo mesmo trabalho sem saber.
Quando você entende o trabalho, para de competir com quem vende a mesma coisa e começa a competir com tudo que o cliente usa para resolver aquele problema.
E a inovação deixa de ser sorte e passa a ser processo.
PS: Se quiser ver a aula do Clayton Christensen sobre o assunto, tem um vídeo bem maneiro aqui.
🥢 3. Quem realmente vai ficar rico com AI
Tá.. chegou a hora de falar desse texto: AI will not make you rich
Ele é do final do ano passado, mas desde que li, penso nele toda semana.
Vou resumir para trazer meu ponto, mas te peço um favor: leia na íntegra. É longo, mas vale a pena.
O principal ponto é que a tecnologia de LLMs (AI como entendemos hoje) se assemelha muito à tecnologia do container (de navios), quando ela foi criada.
O inventor do container multimodal (só tirar do navio e já acoplar num trem ou num caminhão) achou que ficaria rico porque fazia o processo de transporte ficar 10x mais barato, ser 10x mais rápido, mais simples, precisar de menos pessoas.
Tipo o que AI está fazendo dentro das empresas.
Na época, quem olhava de fora achava que quem fabricasse os containers e os operadores de portos, rodovias e ferrovias ficariam ricos.
No fim, nenhum deles ficou.
Quem REALMENTE se deu bem com essa mudança foram as empresas que estavam bem posicionadas operacionalmente para abraçar a nova oportunidade que os containers trouxeram: shipar internacionalmente.
Estamos falando principalmente de IKEA e Walmart, que deixaram de ser empresas locais para GIGANTES globais.
Enquanto todo mundo tá querendo fazer um app de AI, investir em empresas de LLMs, etc, eu fico pensando: Quem são os novos IKEA e Walmart?
Eis que eu leio esse texto da sequoia do começo desse mês: Services: The New Software
O mercado de serviços é 6x maior do que de software. Mas sempre foi visto com desdém pelos tech founders, por não ser escalável e não ter bons múltiplos.
Guess what?
Hoje software é commodity. SaaS estão afundando e empresas que prestam serviços aliados a software estão foguetando.
Algumas empresas que estão indo nessa direção:
Palantir (Vende software, mas bota um engenheiro dentro do time do cliente para implantar da melhor forma possível)
Comp (Não vende software nem consultoria — manda gente de RH + IA pra ser o seu departamento de RH.)
Crosby (AI faz 90% do trabalho de um advogado, mas 10% ainda é supervisionado por um profissional)
Fica aí a reflexão de como usar AI para tornar um serviço escalável e de fato fazer dinheiro com AI.
PS: Por favor leia os dois textos. São mind blowing.
🥢 4. How to get luck (without being rich)
George Mack é um desses caras que tem o dom de transformar conceitos densos em frameworks simples e acionáveis. Ano passado ele escreveu o texto famoso sobre High Agency que virou febre (recomendamos aqui no passado, se ainda não leu vai lá ler que vale a pena).
Recentemente ele publicou uma thread que viralizou no Twitter sobre como criar sorte na vida (sem precisar ser rico). Sim, é uma referência à thread famosa do Naval “how to get rich without being lucky”.
A premissa é que sorte não é acaso, mas sim um jogo de posicionamento.
Ele lista 9 princípios. Vou destacar os que mais me pegaram:
Luck Razor. Quando tiver duas opções, escolha a que tem mais potencial de gerar sorte. Ir num jantar com gente nova ou ficar no sofá vendo Netflix? As duas são válidas. Mas só uma tem chances reais de mudar sua vida.
Mentalidade de Poker, não de Roleta. A maioria das pessoas trata a vida como roleta. Mack defende que você deve tratar tudo como poker. Assuma que existe uma variável que você pode controlar. Quase sempre existe, se você procurar direito.
Esqueça o placar. Seja generoso com as pessoas boas sem manter um placar mental de quem te deve o quê. Quem faz isso acaba com sorte, com propósito e com um velório lotado.
Apresente pessoas. Se o amigo A e o amigo B podem gerar valor um pro outro, apresente-os. É uma mensagem de 30 segundos pra você e pode mudar a vida dos dois. Redes não dividem quando você compartilha, elas se multiplicam.
Fique mais curioso com a idade. Curiosidade é um músculo, ela enfraquece com o tempo se você não usa. A maioria das pessoas vai ficando mais cética e opinativa com a idade. Mack sugere que você coloque pelo menos 20 horas numa tendência nova antes de ter opinião sobre ela. Exercite seu músculo.
O conselho da prisão ao contrário. Em todo filme o conselho clichê pra quem chega na cadeia é “dê um soco no maior cara do pátio”. Mack fala o contrário, encontre as melhores pessoas que você conhece e ajude elas o máximo que puder. Compartilhe os projetos delas, dê feedback, faça apresentações.
O fio condutor de tudo isso é um só: sorte não é algo que acontece com você. É algo que você atrai pelo jeito que se posiciona, se conecta e se comporta.
A galera que parece ter “sorte demais” não ganhou na loteria. Ela só está jogando poker enquanto todo mundo joga roleta.
PS: Se achou interessante, leia o texto na íntegra aqui.
🥢 5. Is this the real life? Is this just fantasy?
Mais um conteúdo que me deixou reflexivo. Dessa vez, foi um vídeo que o Lucas me mandou.
O vídeo fala sobre Simulation Theory, uma linha de pensamento que diz que nós vivemos dentro de uma simulação. Tudo é gerado por computador. Estamos dentro de um The Sims tunado e nós somos os Sims.
Pique Rick and Morty.
A lógica começa com o trilema de Nick Bostrom que diz que uma dessas três coisas PRECISA ser verdade:
Toda civilização se destrói antes de conseguir criar uma simulação realista.
Civilizações avançadas CONSEGUEM criar simulações, mas escolhem não criar.
Civilizações conseguem e criam simulações.
Se a resposta for a 3, qual é a chance da gente na real ser a civilização de verdade e não uma simulação? Quase zero.
"Mas como assim uma simulação?"
Calma… eu explico.
Em 1970, um matemático criou o Game of Life.
O jogo é simples: você tem um grid infinito de células. Cada célula pode estar viva ou morta. A cada rodada, 4 regras decidem o que acontece:
Célula morta com exatamente 3 vizinhas vivas? Nasce.
Célula viva com 2 ou 3 vizinhas vivas? Sobrevive.
Menos de 2 vizinhas? Morre de solidão.
Mais de 3? Morre de superpopulação.
Você cria as condições iniciais, aperta play e depois vê a “civilização” se desenvolvendo, como no gif abaixo:
O Game of Life foi criado com o poder computacional de 1970. Agora pense no que temos hoje. Como AI evoluiu nos últimos anos. Pense como seria daqui a 1000 anos.
Quando a computação tiver poder suficiente, conseguiremos criar uma simulação hiper realista. Aí é so criar as condições iniciais, clicar pra rodar e boom. Big Bang.
O vídeo vai BEEEEEM mais a fundo e vale muito a pena ver para refletir um pouco sobre a vida.
A verdade é que se vivemos em uma simulação, temos a resposta para uma das maiores perguntas da humanidade:
Sim, Deus existe. Ele é o programador.
E aí? Is this the real life? Is this just fantasy?
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